Copos de papel

31 mai

Willian era uma vítima do seu tempo. Todas aquelas roupas cansadas e iguais, mesmas marcas de cigarro, mesmos acordes nas mesmas músicas das mesmas bandas de vinte anos atrás. Mesmos olhares, mesmas pessoas, mesmos casais, mesmos sonhos. Willian era um homem de vida comum, hábitos comuns, gostos comuns. Willian tinha uma namorada, um emprego, uma escolha de carreira, uma cama para deitar e dormir sem pensar todos os dias.

Willian um dia botou os pés fora de casa e se apaixonou por outro homem.

Quando sua idéia de mundo ruiu, tudo que Willian pode fazer foi sentar, sorrir, sofrer. Apoiou o corpo no poste, sentou-se no meio-fio da calçada, encarou o trânsito por horas. E decidiu esquecer.

Porque havia uma sociedade lá fora, onde ele tinha uma namorada, um emprego, uma escolha de carreira e uma cama para deitar e dormir sem pensar todos os dias.

Willian seguiu sua vida. Willian teve outras namoradas, todas mulheres, todas com cabelos longos e seios pequenos e aversão por salto alto. Todas iguais, todas do seu tempo. Casou-se com uma delas, quaisquer delas que fosse. Teve uma lua-de-mel numa praia qualquer que parecia Hawaii, mas não era.

Mas ele estava lá. Estava em todos os lugares. Aquele homem que talvez nunca tivesse existido antes agora existia, com seu sorriso e seus olhos e sua pele e sua indubitável aparência masculina. E Willian nunca o tinha esquecido, é claro. E quando se aproximaram pela primeira vez, naquela praia qualquer, num hotel mexicano barato, era como música.

A voz de sua esposa era como música quando os descobriu. Oh, Billy, ela dizia, Oh meu querido Billy.

A separação o deixou sem nada, exceto pelo valor mínimo de uma passagem de ida para qualquer lugar. Exceto pelo calor do braço forte ao seu redor, das costas contra suas costas, do dividir do aparelho de barba barato. Exceto pela certeza.

Exceto pela música.

Então quando a torre de controle perdeu o contato com o avião, não havia muito mais o que fazer. Não havia muito mais o que temer. Não havia muito mais o que viver, na verdade. Billy Brown tinha ar em seus ouvidos e fogo em seus cabelos, e uma mão apertando forte a sua. E seus olhos vendo estrelas.

E o choque contra a água, concreto líquido lá embaixo, foi como música.

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Você está ao meu lado, mas está comigo?

9 mai

É verdade, ela disse para a cadeira vazia do outro lado da mesa. Você sabe que é.

Olhos pesados. Cigarros. Ressaca. Café. O sol entrava sem pudor pela janela sem cortinas e esquentava a cozinha branca. Aquecia as pernas desnudas. Deixava evidente as olheiras de sono mal dormido ou mal aproveitado.

Olhou pelo vidro a cidade lá fora e pensou que é, aquele era até um bom lugar para se estar. Para se permanecer, inclusive, se fosse avaliar bem.

Esperou o primeiro trem passar, só para ouvir e sentir as pessoas lá dentro, acordadas por fora. Esperou o carteiro, o jornaleiro, as garotas que vendiam biscoitos cedo de manhã para qualquer coisa de escola.

Esperou.

Catou as duas últimas aspirinas da caixa de remédios, sem ver realmente se eram aspirinas ou não. Tomou-as com café. Voltou para a mesa. A cadeira continuava vazia, mas sabia que tinha alguém lá.

Fosse agora, fosse mais tarde, houvesse sido antes. Em algum momento sempre haveria alguém lá.

Fazia parte do esquema de esperar.

É verdade, ela disse para a cadeira vazia. Tenho amado você um bocado ultimamente.

Um carro buzinou lá fora. O despertador avisou que eram sete horas outra vez. O sol continuou iluminando a cozinha vazia.

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O tocador de sino

6 mai

Havia um homem no topo da catedral de plástico. Todas as manhãs e todas as noites ele tocava o sino pelo maravilhosamente moderno sistema de engrenagens e fios elétricos que ligavam os gigantescos e antiquados instrumentos de cobre a botões no topo da escada. Os botões poderiam estar em qualquer lugar, é claro. Poderiam estar ao lado do altar. Poderiam estar no lugar dos olhos de conta da estátua de acrílico de Jesus Cristo no centro da nave. Mas você tinha que subir um lance absurdo de degraus de madeira e metal e PVC para apertar dois botões. Diziam que era para ser uma ação prazerosa em respeito a Deus Todo Poderoso. Diziam que era para os padres serem menos ociosos. Então entre o ócio e a verba, o pároco preferiu contratar alguém a subir e descer degraus todos os dias de sua vida.

O homem no topo da catedral de plástico era um tocador de sino profissional. Legalizado. Carteira assinada. Décimo terceiro e férias. Plano de saúde, plano dentário, auxílio transporte, auxílio alimentação.

O homem no topo da catedral de plástico era ateu. Astrônomo. Pintor. Formado em qualquer faculdade onde se usa um absurdo do senso lógico, e formado com mérito. Sem mulher, sem filhos, sem família, sem história.

O homem no topo da catedral de plástico era uma gárgula.

Muito se especulava na cidade sobre aquela contratação. Nada relacionado ao fato da preguiça e fartura monetária do pároco, é claro. Tudo relacionado com quem seria, de onde viria, para onde iria. E por que, apesar de todos os benefícios do cargo valerem o esforço, ele simplesmente não saía da torre depois de tocar os sinos. Havia toda uma vida ativa na cidade, interior ou não, comerciante ou não. Pessoas e lugares e música. E ele permanecia sobre a torre, fosse tempo que fosse.

Logo, ele não podia sair de lá porque estava fixado a torre, diziam, tal qual um ornamento ou totem. É claro. Corcunda de Notre Dame, Drácula, monstro de Frankestein. Gárgula.

Mas o homem no topo da catedral de plástico era só um cientista triste.

É claro que com o tempo o assunto perdeu a graça, os comentários se redirecionaram pra outras situações tão relevantes quanto, o boato foi deixado em paz. E o homem seguiu sua rotina de nunca sair da torre.

Com perfeição os sinos eram acionados todos os dias, apesar de não ter ninguém ali que entendesse o que era ouvi-los. O dia transcorria com a catedral de plástico de portas fechadas. O tocador de sino sentava-se entre Fobos e Deimos e observava as fábricas no horizonte. Aquelas portas sim, nunca se fechavam. Quando seu relógio avisava que era hora outra vez, acionava os botões. Sinos. Portas fechadas. Noite.

Sentava entre Fobos e Deimos para ver suas fábricas pixealizadas no horizonte, iluminadas e abertas dia e noite. Cego e surdo e triste.

O homem no topo da catedral de plástico era uma estátua de sal.

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09:30 p.m.

4 abr

Coração na garganta e todas essas malditas borboletas fazendo sua barriga reluzir como um holofote fora de hora e aí o coração impede você de falar direito e bloqueia todo o sangue que deveria ir direto para o cérebro e faz toda essa confusão de palavras e face corada de vergonha que não deveriam estar aí e você sente sua determinação indo embora e um sentimento de total falta de sentido se apodera de você.

Qualquer hora você aprende que isso não é falta de sentido e que é só o sentido sendo completo e preenchido e então você não precisa mais procurar por ele porque ele está todo ali.

Todo ali. Você respira.

São palavras e mais palavras que continuam a fluir sem um sentido completo e todas as bobagens que você não deveria dizer mas diz e pergunta mesmo assim porque é sempre assim que funciona e só dá certo quando nada disso é levado a mal então você continua interminável e rindo das coisas mais sem graça porque é tão boba e mal consegue ouvir a música do bar ou os carros passando ou sentir o frio do maldito inverno e tudo que você sente e escuta e quer é aquele diálogo idiota e seus dedos congelando juntos e o álcool não servindo para absolutamente porra nenhuma.

Tão fugaz e momentâneo que mata.

Que termina.

(ele acende o seu cigarro e você tem certeza de que poderia ficar ali para sempre.)

Facilmente. Isso. Mata.

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Amantes imaginários

4 mar

Por favor, dispa-a devagar. Olhe para seus olhos, não para seus seios. Acaricie sua face, não suas pernas. Beije suas mãos, seus lábios, os cabelos molhados de chuva. Abrace-a.

Ame-a.

Deixe que ela deite primeiro na cama desfeita. Você é tão bruto, o que está fazendo? São roupas caras, homem. É uma dignidade cara que você está corrompendo.

Dispa-se devagar, não como se estivesse em chamas. Tire essas malditas meias. Pare de empurrar a cabeça dela.

O que diabos você acha que é isso? Uma corrida?

Ela é só uma garota. O que você está fazendo com ela? O que está fazendo com você mesmo?

Você deveria realmente ter escolhido um hotel mais caro.

Essa posição é tão desumana. Você é tão sujo. Pare de ignorar essas lágrimas de dor. Pare de ignorar essas lágrimas.

Sim, as suas.

Pare de ignorar.

E por Deus, pare de bater nela desse jeito.

Ela só tem dezessete anos, o que você está fazendo? E isso dói, dói tanto.

Olhe para ela por um segundo e perceba o quanto dói. Perceba o quanto enjoa. Perceba o quanto é degradante.

E com olhar, quis dizer olha-la no rosto. Nos olhos. Olhar de verdade.

Por favor.

Sim, isso é medo. Que bom que percebeu.

E sim, é triste que isso faça você ficar ainda mais excitado.

Você é tão hipócrita. Uma garota inocente, uma garota jovem. Olhe só o que você fez.

Olhe só o que você fez.

Olhe só o que aconteceu de novo.

Não, não pergunte. Ela não gosta do gosto. Ela não sentiu nada e não, não foi bom.

Admita, nem para você foi.

É tão triste. Acenda o cigarro dela. Pague com notas trocadas para que possa voltar para casa. Vá embora.

Por favor, vá embora.

Vá embora.

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Vitrais – na igreja

29 jan

Seus olhos faiscaram ao abandonar a claridade do dia e entrar na capela escura. Parado na porta da nave, admirou os bancos surrados por um momento. Vazia, como sempre, era quase como chegar a uma festa na qual ninguém havia comparecido.

Igrejas eram sempre assim, sabia. Em algum momento tudo tinha sido uma grande festa, e agora só desavisados compareciam, achando que a festa era a mesma de sempre.

O silêncio, o cheiro de incenso, a pequena lâmpada vermelha no altar, as gárgulas carcomidas fazendo sombra através dos vitrais desbotados. Era quase como estar em casa novamente. Podia sentir, no seu peito, inflando seus pulmões.

O monstro do vício ronronou, satisfeito por estar ali mais uma vez.

Por alguns minutos se permitiu vagar de santo em santo, cada um com seu devido fetiche em mãos e Santa Inês a olhar plácida para o cordeiro em seus braços. Bocas talhadas de modo grosseiro, pele branca, menino Jesus por todos os lados. Mais pele branca. Mais menino Jesus. Cruzes grandes e pequenas — fardos grandes e pequenos. Havia naquela inexpressividade toda uma má vontade em servir o Senhor que era como se cada santo profanasse seu altar e desse à igreja o motivo para estar falida e vazia.

Sorriu.

Andou por entre os bancos longos até a lateral mais oculta da capela, ouvindo seus passos na madeira sem polimento e os sussurros mínimos das duas ou três pessoas que rezavam. Havia um outro som, distante demais pra identificar, mas que se mesclava quase que como mágica com o cheiro de mirra queimando e cera derretida.

Parou defronte ao confessionário. Entrou na cabine diminuta e acomodou-se, encarando o veludo da porta, sentindo os olhos do padre sobre si na abertura a sua direita. Respirou fundo. Falou.

— Padre, eu pequei.

— Conte seus pecados ao Senhor, filho, para que possa ser perdoado.

A voz do pároco soava cansada, arranhada, cítrica. Um homem velho, julgava. Na verdade, sabia.

— Hoje trabalhei durante toda a manhã. As coisas no escritório da polícia são fáceis, o senhor sabe, só papelada para arquivar e algumas carimbadas e pronto, estou livre para fazer o que quiser. Eu pequei, padre, porque escolhi voltar aqui mais uma vez. — pausou, como se esperasse alguma reação. — Vim ver Paola, a pedido do asiático.

Então obteve sua reação, ouvindo um suspiro de quase satisfação do outro lado da parede frágil. A cortina farfalhou e viu o pequeno padre parado a sua frente, com um molho de chaves na mão.

— Diria para me seguir, mas acho que já sabe o caminho. — murmurou, sorrindo.

Acompanhou o pároco até a sacristia, esperando enquanto ele abria à chave uma porta praticamente invisível, escondida por o que um dia havia sido uma rica tapeçaria, agora embolorada nas pontas. Dobradiças rangendo e, enfim, a música.

Do outro lado da porta pode sentir todos os sons e cheiros familiares a seu corpo, a sua alma, uma alegria esfumaçada. Buscou dinheiro no bolso do casaco e depositou-o nas mão calosas do homem de batina. Andou pelo corredor de pedra enquanto a luz elétrica da sacristia desaparecia com o fechar da porta, dando lugar à luz funesta do fogo que iluminava os corredores de pedra úmida.

E os cômodos no final do corredor eram os mesmos de sempre. Os cheiros e as companhias. A atendente cansada.

O monstro do vício em seu peito aprontou-se para a refeição do dia.

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Reencontro

26 dez

E Pedro se perdia no sorriso de Eloísa. Era como um encanto, como magia antiga e persistente que não se deixa esquecer mesmo depois de todos aqueles malditos e fatídicos anos.

Achava que ela estava morta, coisa que parecia recíproca. Mas não era estranho reencontrá-la, não depois de todo aquele tempo juntos e o costume de admirar a força da mulher. Fora o que o levara ao casamento, no final das contas.

Em um minuto ela parecia morta, então seus olhos se abriam de surpresa e espanto ao vê-lo — felicidade? — e no instante seguinte podia vê-la sorrir com tanta vontade que era como se o rosto enrugado fosse rachar e partir.

Pedro correu de Eloísa, o marca-passo reclamando logo após os primeiros segundos. Ela o perseguiu. Não era como se houvesse alguma dificuldade em capturá-lo de volta, afinal, era isso que significava aquele sorriso. Novas forças, novas idéias. Nova idade.

Imortalidade.

Eloísa tinha os olhos cheios de bondade quando o segurou pelo braço e o fez imediatamente estaquear no lugar. Músculos retesados. Ossos virados em pedra. A cabeça pendendo molemente no pescoço, os olhos apavorados.

E Pedro se perdia no sorriso de Eloísa. Era ela, depois de tantos anos de caos, depois da Praga, depois das caçadas e das mortes e do medo do escuro. Reencontrar a esposa era como reencontrar uma parte sua.

As pessoas ainda não tinham descoberto que eles estavam contaminando os normais ao invés de simplesmente matá-los como antes. Ou talvez ela fosse um deles desde o começo, infectada desde o primeiro dia em que se desencontraram na cidade apocalíptica que um dia havia sido pacífica.

E seu sorriso. Seu sorriso era tão delicado e deliciado que lhe dava uma angústia indescritível, uma saudade tão dolorida que poderia despedaçá-lo como um boneco de pano.

E, na verdade, agora, ele era um boneco de pano os braços dela. Toda aquela força, toda aquela vontade de tê-la novamente, resumida no simples ato que Eloísa realizava agora, de apertá-lo contra o peito e expor-lhe a garganta. Tudo terminava como havia começado.

Com sangue.

Dó pó viestes, ao pó voltarás.

Pedro via o sorriso de sua querida Eloísa, mãe de seus filhos, avó de seus netos, pedaço de sua alma avassalada pela peste. Via aquele sorriso se abrir cada vez mais, sulcando a pele rugosa, transformando seus lábios em tiras finas e pálidas. Via os dentes amarelados pelo cigarro, mas ainda presentes apesar do tempo. Via as manchas vermelhas de gula neles, também.

Vermelho e mais vermelho.

Ela inclinou o rosto com carinho para o pescoço estendido, a jugular pulsando arroxeada e cansada. Beijou a pele macilenta. Cravou os dentes com um suspiro de satisfação.

Vermelho e mais vermelho.

Quando ouviu o coração parar, quando o peito encostado no seu deixou de se mexer, ela parou. Largou-o no chão, os lábios vermelhos e mais vermelhos e os olhos inebriados.

Pedro sorria, seco e com pupilas do tamanho de maçãs. Eloísa não pode deixar de sorrir em resposta.

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