Willian era uma vítima do seu tempo. Todas aquelas roupas cansadas e iguais, mesmas marcas de cigarro, mesmos acordes nas mesmas músicas das mesmas bandas de vinte anos atrás. Mesmos olhares, mesmas pessoas, mesmos casais, mesmos sonhos. Willian era um homem de vida comum, hábitos comuns, gostos comuns. Willian tinha uma namorada, um emprego, uma escolha de carreira, uma cama para deitar e dormir sem pensar todos os dias.
Willian um dia botou os pés fora de casa e se apaixonou por outro homem.
Quando sua idéia de mundo ruiu, tudo que Willian pode fazer foi sentar, sorrir, sofrer. Apoiou o corpo no poste, sentou-se no meio-fio da calçada, encarou o trânsito por horas. E decidiu esquecer.
Porque havia uma sociedade lá fora, onde ele tinha uma namorada, um emprego, uma escolha de carreira e uma cama para deitar e dormir sem pensar todos os dias.
Willian seguiu sua vida. Willian teve outras namoradas, todas mulheres, todas com cabelos longos e seios pequenos e aversão por salto alto. Todas iguais, todas do seu tempo. Casou-se com uma delas, quaisquer delas que fosse. Teve uma lua-de-mel numa praia qualquer que parecia Hawaii, mas não era.
Mas ele estava lá. Estava em todos os lugares. Aquele homem que talvez nunca tivesse existido antes agora existia, com seu sorriso e seus olhos e sua pele e sua indubitável aparência masculina. E Willian nunca o tinha esquecido, é claro. E quando se aproximaram pela primeira vez, naquela praia qualquer, num hotel mexicano barato, era como música.
A voz de sua esposa era como música quando os descobriu. Oh, Billy, ela dizia, Oh meu querido Billy.
A separação o deixou sem nada, exceto pelo valor mínimo de uma passagem de ida para qualquer lugar. Exceto pelo calor do braço forte ao seu redor, das costas contra suas costas, do dividir do aparelho de barba barato. Exceto pela certeza.
Exceto pela música.
Então quando a torre de controle perdeu o contato com o avião, não havia muito mais o que fazer. Não havia muito mais o que temer. Não havia muito mais o que viver, na verdade. Billy Brown tinha ar em seus ouvidos e fogo em seus cabelos, e uma mão apertando forte a sua. E seus olhos vendo estrelas.
E o choque contra a água, concreto líquido lá embaixo, foi como música.
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